Entre nós

Quero te contar uma história: Você sabia que durante várias décadas o ponto cruz foi disciplina obrigatória no estudo de mulheres? Sim, a prática de bordar era um saber essencial direcionado ao gênero feminino, que nos últimos anos vem sendo ressignificada e subvertida (oba!). A história do nosso país, das nossas famílias, da nossa comunidade, está cheia do encontro entre mulheres que se reuniam para atar e desatar nós. Os nós dos enxovais que bordavam, das roupas que criavam e alguns nós mais complexos de um sistema que sempre tentou nos colocar dentro de uma mesma caixinha de obrigações e atribuições.

(Artesãs do Coletivo Linhas do Horizonte fazem mosaico de bordados – Divulgação/Linhas do Horizonte)

Na Roupateca, resgatamos o ato de estar entre nós porque sabemos que é do encontro de mulheres que muitos desses nós foram atados ou desatados, tornando possível falar de uma rede de leveza e, ao mesmo tempo, de muita força. Mais do que te contar uma história aqui, acredito que estamos contando uma história já faz um tempo. Junto de um monte de mulheres que também desejam virar esse mundo de cabeça pra baixo e imaginaram uma relação diferente com o vestir, que passa mais pela diversão do que por uma lista de regras a serem seguidas. Entendo que falar de uma moda mais sustentável é coisa séria sim e, portanto, nosso compromisso. Mas nem por isso precisa ser um fardo.

Em tempos de pandemia, a palavra toma importante lugar na dinâmica do afeto, reparou? Exercitar essa prática ancestral do diálogo resgata algo que nos torna mais humanos: compartilhar histórias. Assim como Jackson Araújo sempre diz, acredito que a moda não é mais sobre roupas e sim sobre pessoas. Na Roupateca nos interessam as pessoas que usam as nossas roupas, suas histórias, o que nos aproxima e o que as tornam únicas.

Estar entre nós, para mim, é lembrança de que o caminho é unir. Costurar ideias, estar perto mesmo quando a presença física não se faz possível. E quando isso acontece quem é que resgata? A palavra, a escuta, o cuidado. Bom, se você chegou até aqui acho que deu match, né? Então puxa uma cadeira, pega um café ou uma cerveja e fica livre para vasculhar esse nosso acervo recheado de histórias. Estamos entre nós.

Compartilhe:

Deixe um comentário