André Carvalhal: A vez da moda com propósito

Em 2014 quando comecei a escrever o livro “Moda com propósito”, falava-se muito pouco sobre o assunto. O mundo vivia o auge da globalização: marcas, conteúdos e produtos circulavam livremente com incentivo ao consumo de um pouco de tudo.

Já naquela época, uma coisa me incomodava, mas eu não sabia muito bem o que era. Um tempo depois, comecei a perceber que o incômodo não era só meu. A moda, que até então era altamente desejada, copiada, referenciada em filmes, seriados, videoclipes…, passou a ser questionada. Era como se algo tivesse se perdido.

O consumo excessivo e os desdobramentos psicológicos gerados por ele, começou a dar sinais em uma sociedade e meio ambiente esgotados. E vimos grandes criativos deixando a direção de grandes marcas – exaustos. Vimos movimentos surgindo para questionar o consumo e a origem do que vestimos. E a promessa de que roupas (e outras “coisas”) traria felicidade… bem, essa claramente começou a cair por terra.

Crédito: Chico Cerchiaro

Então começamos a ver novos negócios (re)surgindo: a ascensão dos brechós, das bibliotecas de roupa (por assinatura e aluguel), as feiras de troca, as roupas feitas à mão. Eram os primeiros sinais de que a lógica estava mudando e de que o sistema precisava se reinventar.

Enquanto isso, muitas marcas estavam de olho no passado, recriando modos e estilos de décadas de ouro – o que vinha caracterizando a moda desde o início dos anos 2000. E de tanto olhar para o passado, parece que muitas esqueceram de perceber o presente e o futuro que se desenhava.

Pouquíssimas marcas conseguiram se adaptar às novas demandas e desejos dos consumidores. Raríssimas conseguiram se adaptar às necessidades dos funcionários e do meio ambiente. Em meio a tudo isso eu comecei a entender o que havia se perdido: o propósito.

Assim como diversas outras áreas, a moda pode ter um papel importante no mercado e na vida das pessoas. Mas para dar conta de toda velocidade e crescimento, o seu real valor se perdeu e tudo foi reduzido a roupas – que muitas vezes as pessoas sequer estavam precisando.

Quando o livro foi lançado, no final de 2016 o cenário era outro. Institutos e profissionais de tendência, observando o comportamento dos consumidores e os principais movimentos do mundo, começaram a apontar “o fim da moda” como conhecíamos.

Muitos consumidores saíram na frente e se transformaram antes das marcas. Alguns com limitações financeiras e outros com excesso de consciência, começaram a impor a transformação – que começou a ser sentida nos anos seguintes, com os piores resultados de faturamento da história nas marcas e a quebra de muitas delas.

Crédito: Tim Mitchell

Para mim foi ficando cada vez mais forte a noção de que o sucesso das marcas dependeria do sucesso do planeta e das pessoas. Afinal, vestimos plantas, bichos e petróleo. O que vendemos é feito por pessoas e para pessoas. Com o planeta doente (recursos cada vez mais raros e caros) e as pessoas doentes (física-energética-material-e-mentalmente falando), dificilmente as marcas continuariam de pé.

Até que 2020 chegou e agora estamos vivendo tudo isso na prática. O mundo, que já dava sinais de obsolescência, foi posto de castigo para se repensar, se reinventar. A natureza, esta vai muito bem, obrigada (!), se recuperando e nos mostrando que o problema somos nós e o nosso modo de funcionar.

Acho que todos concordam que chegamos no limite. Há uma concordância de muita gente também, de que do jeito que tudo estava funcionando, não era legal (para muitas pessoas e marcas). O lado bom disso tudo, é que da mesma forma que no momento mais escuro da noite é quando começa a amanhecer, estamos diante da chance de um belíssimo renascimento da moda.

E por isso eu estou otimista – apesar de todas as dificuldades que eu reconheço que enfrentaremos. O jeito que criamos, produzimos, comunicamos, vendemos e compramos já havia perdido total o sentido. O momento atual não nos dá outra opção senão a de realizar mudanças profundas.

Se você me perguntar qual é o propósito da moda, eu te diria que é servir. Servir à vida e aos sonhos das pessoas. Hoje, em meio a tudo que estamos vivendo, é mais do que a hora de retomar este valor. E compreender que somente unidos seguiremos.

Crédito: André Carvalhal (Foto: Reprodução/ Instagram)

Estamos diante de uma oportunidade única na nossa existência. Ao invés de temer todas as mudanças que estão a nossa volta, devemos aproveitar o fim daquilo que conhecemos para mergulhar em novas maneiras de viver e reconstruir o mundo.

Temos diante de todas as nossas vidas uma página em branco para reescrever uma nova história. O mesmo vale para as marcas. Este é o (convite) momento de entendermos como fazer roupas realmente necessárias às pessoas – que sirvam e representem este momento da nossa vida.

É hora de relembrarmos também que moda vai além das roupas, servindo verdadeiramente aos nossos sonhos. Indo além da matéria. É hora de retomar a nossa capacidade de criar e sonhar. De (resgatar) trazer tanta inspiração quanto um filme, uma música ou um quadro.

Como outras formas de arte, a moda pode nos ajudar nos dilemas mais íntimos do nosso cotidiano. Eu super acredito nela como medicina, com um meio terapêutico, de autoconhecimento, para nos guiar e curar. Ajudar a curar a natureza, entendendo que fazemos parte dela, dependemos dela. E também de funcionários, parceiros e colaboradores.

Como clientes, teremos a chance de incentivar aquelas que estão a favor desta reconstrução. Como criativos ou marcas teremos a chance de servir a construção de um novo mundo. De uma nova moda, que escolhe a partir do que faz, como vai servir e como vai ajudar a curar este mundo que estamos vivendo. A moda que tem realmente um propósito e vai além das roupas.

André Carvalhal, escritor e consultor de design para sustentabilidade.

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